sexta-feira, 31 de maio de 2024

Godzilla Minus One é uma aula de semiótica

[CONTÉM SPOILERS] 

Godzilla é a maior franquia de filmes do mundo. E Godzilla Minus One é simplesmente o melhor filme de todos os mais de 30 filmes da franquia. 

Não tenho por objetivo fazer uma crítica completa do filme. Não me considero apto o suficiente para falar sobre muitos detalhes técnicos como efeitos especiais (CGI ou efeitos práticos), efeitos sonoros, trilha sonora, entre outras coisas. O que acho que posso falar com alguma propriedade é sobre a história e como ela é contada. (Storytelling, palavra em outra língua que quer dizer Contação de histórias). 

O primeiro filme do Godzilla foi lançado em 1954, nove anos após o término da segunda grande guerra. Godzilla foi criado para mostrar os horrores da guerra e mais especificamente as consequências das bombas nucleares jogadas em Hiroshima e Nagasaki. 
Com tantos filmes estadunidenses distorcendo o simbolismo do monstro, Godzilla Minus One não é só um filme maravilhoso, é uma verdadeira aula de semiótica. 

semiótica
(se·mi·ó·ti·ca)
substantivo feminino

1. Ciência dos modos de produçãode funcionamento e de  dos diferentes sistemas de sinais de comunicação entre indivíduos ou coletividades.

"semiótica", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024.

O primeiro símbolo que aparece é o desertor, desonrado, covarde, na figura do protagonista. Godzilla também aparece logo no início, em um tamanho diminuto comparado com o que estamos acostumados com o monstro nos filmes. 

Quando Shikishima, o protagonista, volta para casa, temos a primeira cena de uma Japão destruído pela guerra. Cidades em escombros, pessoas passando fome. Estima-se que os bombardeios realizados em Tóquio tenham vitimado por volta de até 200 mil pessoas, quase o mesmo número de mortes causados pelas duas bombas nucleares jogadas em Hiroshima e Nagasaki, aproximadamente 210 mil mortes. E é nesse cenário que o filme começa se mostrar como muito mais do que um filme de monstro. Resgatando a ideia do primeiro filme de Godzilla, Godzilla Minus One mostra o drama e os traumas dos sobreviventes da segunda grande guerra. Uma vizinha que perdeu toda sua família e culpa o protagonista por não ter se matado para salvar o país, uma jovem que não tem nada e fica encarregada de cuidar de uma bebê que não é sua e o protagonista que lida com o dilema de não ter sido um piloto kamikaze conforme as determinações que recebeu. O tempo passa e esses personagens citados vão conseguindo reconstruir suas histórias em meio aos destroços que não são como antes, mas que ainda existem,  fora dos personagens como no cenário que mostra que a reconstrução completa ainda não aconteceu, quanto dentro do protagonista que não consegue lidar com o fato de não ter cumprido seu dever. Shikishima consegue um trabalho, vive bem com a garota e a bebê, mas ainda tem pesadelos constantes com o passado.  

Godzilla volta a aparecer e agora ele está maior, muito maior. Sua segunda aparição no filme acontece no mar. O filme se passa nos anos seguintes a guerra. Em 1946, os EUA começaram um programa de testes nucleares no Atol de Bikini (o mesmo daquele desenho com uma esponja e uma estrela-do-mar falantes). Mais de bombas, entre bombas de hidrogênio e bombas nucleares, foram lançadas. Atol de Bikini fica no oceano pacífico, mesmo oceano onde Godzilla faz sua segunda aparição no filme. Devido a radioatividade o local não pode ser habitado. Radioatividade, monstro gigante, faz a conexão aí. A simbologia fica pra um momento posterior no filme. 

Quando Godzilla finalmente aparece em terra, temos a dimensão de seu tamanho colossal, mostrando que nenhum arranha-céu é maior do que ele, maior do que o que ele representa. Ele destrói edifícios como se fossem peças de lego, toda grandiosidade da cidade é pequena perto de sua força de destruição. 

Ele utiliza seu raio de calor (tradução do filme), pela segunda vez e pela segunda vez só o usa após ter sido agredido. Talvez, seja um símbolo para comunicar que a bomba só caiu no Japão porque o Japão escolheu entrar em guerra e atacar outros países, mas não tenho tanta certeza quanto a esta simbologia, ou não tenho tanta certeza que ela tenha sido proposital dentro do filme. O que tenho certeza é quanto a ativação do raio. Os espinhos nas costas do monstro fica azuis e saltam pra fora, depois se comprimem e o raio sai pela boca dele. O próprio diretor confirmou que é uma metáfora para o mecanismo de ativação da bomba atômica. A explosão causada pelo raio também é um símbolo da bomba. O efeito de criar uma figura com aspecto de um cogumelo é o mesmo efeito que encontramos em vídeos de explosões de bombas nucleares. Foi provocado, ativou e atirou o raio. Godzilla é a bomba, ou as bombas. Mas mais do que isso, neste filme em específico, Godzilla é também todo o terror da guerra. Não precisamos ver corpos mutilados, vísceras voando, sangue jorrando na câmera para comunicar o terror da situação. Vidas estão sendo esmagadas pela pata do grande monstro, pessoas despencam dos prédios que desabam e nenhum gore foi necessário. 

Noriko, jovem que morava com Shikishima é morta em consequência do raio. Uma das cenas mais belas do filme se segue, a Chuva Negra. Chuva Negra foi algo que aconteceu em Hiroshima após a explosão da bomba, o céu ficou escuro com a enorme nuvem que se criou em consequência da explosão e uma chuva radioativa caiu sobre Hiroshima. Shikishima de joelhos, debaixo da chuva negra sendo exposto a todas as desgraças que os sobreviventes da bomba passaram. Por mais que nem todos os espectadores conheçam, a simbologia está presente. Sem uma palavra dita, o filme comunica exatamente o que precisava comunicar. Isto é semiótica pura. 

Os civis japoneses descrentes com o governo para combater Godzilla, por este não querer agir de modo que possa ter impacto nas tensões entre União Soviética e EUA, resolvem montar uma força tarefa para combater a ameaça. O nacionalismo japonês, que foi exposto de forma muito sútil, é criticado quando o governo manda pessoas se matarem em nome de seu país, de seu povo e de sua honra (fonte do tradicionalismo), mas não consegue agir quando o país e seu povo precisam ser salvos. Morra para nos salvar, mas não espere isso de nós. O tradicionalismo e o nacionalismo ainda estão presentes quando pessoas resolvem arriscar a própria vida, mas está presente de um jeito diferente. Não é o fascismo dos governantes que os obrigam a se arriscarem. Não é pela morte que lutam, é pela vida, para que todos que ficarem vivos possam aproveitar a vida. Godzilla também é uma representação das forças da natureza. Não é uma guerra que pode ser evitada. É um desastre que precisa ser impedido. Mas como não tenho conhecimento algum sobre o Xintoísmo, vou deixar esse ponto pra você pesquisar e fazer sua própria análise quanto a isso. O fascismo japonês é também exposto quando nos diálogos eles falam que os aviões dos kamikazes não tinham assentos ejetáveis. Pilotos kamikazes não podiam ficar vivos mesmo que o dano causado pelos aviões fosse o mesmo com eles dentro ou não. ("É honroso morrer pelo seu país." - frase de outro filme fantástico anti-guerra Johnny Vai à Guerra. O assento ejetável citado também serve como uma Arma de Tchekhov, que é um princípio dramático que diz que toda informação colocada precisa ter serventia para a história. Nada pode ser citado se não servir de nada. Se uma arma for mencionada, eventualmente ela precisará ser disparada. Vamos dar atenção pra isso mais pra frente. 

Como nem tudo é flores, também tenho críticas ao filme. Os arquétipos, principalmente o de herói que se redime me incomoda em quase todos os filmes. Mas eu consegui relevar muito bem esse incômodo pelo nível de dramaticidade e as várias camadas que conseguiram ser feitas para construir o protagonista. Os pesadelos, a mente dele que parecia estar sempre inquieta por ele ter uma guerra dentro de si e principalmente, pela arma de Tchekhov. O mesmo mecânico que culpou Shikishima pela morte de todos que estavam na primeira aparição de Godzilla, foi quem consertou o caça que o protagonista voou para salvar o país. Esse mecânico coloca um assento ejetável em seu caça (avião utilizado para combate aéreo). Shikishima consegue sobreviver ao arremessar seu avião na boca do monstro graças a isso. O assento ejetável que foi falado lá atrás, foi usado. Apesar de ter dado muitas pistas de que isso aconteceria, ainda assim acho que pode ser considerado uma ferramenta que foi interessante pra narrativa. Outro ponto que não necessariamente considero negativo, mas acredito que poderiam haver mais subtextos na trama. Tudo que é colocado no filme comunicação, mas em certos pontos achei que muita coisa ficou explícita demais. 

Por fim, o final. A cena final após Godzilla ser derrotado, mostra-o se regenerando, como todos já sabiam que ele podia fazer. Godzilla tem o aspecto de um réptil, ou dinossauro e répteis tem a capacidade de regenerar partes do seu corpo. Alguns répteis quando ameaçados soltam a cauda para distrair o predador e poderem fugir. A cauda posteriormente cresce novamente. (Informação aleatória, ou não.) O que é simbólico aqui é o que Godzilla representa: a guerra, armas nucleares e essa eterna ameaça sob as quais temos de conviver diariamente. Basta um lunático com poder querer e estamos todos sob o risco de uma nova guerra com armas ainda mais destrutivas do que as bombas jogadas em Hiroshima e Nagasaki. Ainda após os créditos, há o som do rugido (é rugido que aquele tipo de bicho solta?) do monstro. 

Um filme brilhante que deu uma aula de como se comunicar a partir de imagens e símbolos. Godzilla Minus One é uma verdadeira aula de semiótica que merece ser vista com a devida atenção que um trabalho desse tipo precisa. 


Ficha Técnica: 
Título:
Godzilla: Minus One (Original)
País: Japão
Ano: 2023
Roteiro e Direção: Takashi Yamazaki 
Gênero: Drama, Ação
Elenco: 
Ryunosuke Kamiki - Koichi Shikishima
Hamabe Minami - Noriko Oishi
Endo Yuya - Tadayuki Saito
Hidetaka Yoshioka - Kenji Noda
Kisuke Iida - Akio Itagaki
Kuranosuke Sasaki - Yoji Akitsu
Michael Arias - Militar Americano
Munetaka Aoki - Sosaku Tachibana
Ozuno Nakamura - Soldado
Sakura Andou - Sumiko Ota
Yuki Yamada - Shiro Mizushima
Duração: 125 minutos

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