segunda-feira, 3 de junho de 2024

Não é sobre a morte - A morte de Ivan Ilitch (Leon Tolstói)

Liev Tolstoi já começa o livro introduzindo a morte do personagem, como já foi anunciado no próprio título do livro. Nos capítulos seguintes, acompanharemos a vida de Ivan Ilitch desde muito novo, até seus momentos finais.

O livro é narrado em terceira pessoa, focalizando em Ivan Ilitch. Poderia ter sido narrado em primeira pessoa, visto que em alguns pontos o narrador quase se mescla com o protagonista, dizendo coisas ele mesmo (o narrador) que podem até confundir se são pensamentos do narrador ou do Ivan, podemos ver uma situação dessa no seguinte trecho: "[...] havia sido a vida toda um ser único, especial". Ao meu ver essa quase mesclagem entre narrador e protagonista foi um grande acerto de Tolstoi que construiu a obra maravilhosamente bem.

O que o livro traz de reflexão mais constante não é a morte, mas a vida. A angústia sobre a morte é um detalhe, muito bem colocado, para o protagonista questionar sua vida e todas as escolhas que fez. Onde podemos ver no seguinte trecho: ""Talvez eu não tenha vivido como deveria," ocorreu-lhe de repente. "Mas, como, se eu sempre fiz o que devia fazer?", respondeu, imediatamente descartando essa hipótese; a solução para o enigma da vida e da morte era algo impossível de encontrar.".

Porém, antes de ele pensar isso, já apresentava sinais do desacordo com o modo como vivia, quando quase todas as pessoas ao seu redor começam a tratá-lo com uma falsidade em nome do decoro como ele tratou as coisas durante toda sua vida: "O horrível, terrível ato de sua morte, ele via, estava sendo reduzido por aqueles que o rodeavam ao nível de um acidente fortuito, desagradável e um pouco indecente [...], e agiam assim em nome do mesmo decoro ao qual ele próprio subjugara-se a vida inteira."

E só então no final ele alcança a coragem para realmente questionar seu modo de vida. Um burocrata que agiu sempre em nome de seus interesses próprios como poder e dinheiro, aproximando-se de pessoas influentes e deixando de lado quem não podia lhe oferecer status. E é na figura do seu trabalhador mais humilde onde ele encontra o único resquício de veracidade dentro de sua própria casa. Seu casamento não foi um ato pensado para além de uma questão social, seus filhos ele não demonstrava amar, seu trabalho ele o realizava da melhor forma para mascarar seus problemas e poder manter seu status de cidadão da alta sociedade, coisa que nunca foi.

Ao julgar a atitude de todos ao seu redor como uma farsa, ele julgava a sua vida. Vejamos o trecho: "Ocorreu-lhe, pela primeira vez, o que lhe tinha parecido totalmente impossível antes - que ele não teria vivido como deveria. Veio-lhe à cabeça a ideia de que aquela sua leve inclinação para lutar contra os valores das classes altas, aqueles impulsos de rebeldia que mal se notavam e que ele havia tão bem aplacado talvez fossem a única coisa verdadeira, e o resto todo, falso. E suas obrigações profissionais e a retidão de sua vida e sua família e sua vida social tudo falso e sem sentido. Tentou defender essas coisas a seus próprios olhos e subitamente deu-se conta da fragilidade do que estava defendendo. Não havia o que defender."

Não sei se a crítica que o livro faz ficou evidente para todos, mas espero ter contribuído. Liev Tolstoi era um crítico ferrenho da alta burguesia e nesse livro ele coloca alguém (de classe média) que se acha burguesia para mostrar a grande besteira que é não se viver o que se quer em nome de um status quo.

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