sexta-feira, 31 de maio de 2024

Godzilla Minus One é uma aula de semiótica

[CONTÉM SPOILERS] 

Godzilla é a maior franquia de filmes do mundo. E Godzilla Minus One é simplesmente o melhor filme de todos os mais de 30 filmes da franquia. 

Não tenho por objetivo fazer uma crítica completa do filme. Não me considero apto o suficiente para falar sobre muitos detalhes técnicos como efeitos especiais (CGI ou efeitos práticos), efeitos sonoros, trilha sonora, entre outras coisas. O que acho que posso falar com alguma propriedade é sobre a história e como ela é contada. (Storytelling, palavra em outra língua que quer dizer Contação de histórias). 

O primeiro filme do Godzilla foi lançado em 1954, nove anos após o término da segunda grande guerra. Godzilla foi criado para mostrar os horrores da guerra e mais especificamente as consequências das bombas nucleares jogadas em Hiroshima e Nagasaki. 
Com tantos filmes estadunidenses distorcendo o simbolismo do monstro, Godzilla Minus One não é só um filme maravilhoso, é uma verdadeira aula de semiótica. 

semiótica
(se·mi·ó·ti·ca)
substantivo feminino

1. Ciência dos modos de produçãode funcionamento e de  dos diferentes sistemas de sinais de comunicação entre indivíduos ou coletividades.

"semiótica", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Verão da corrupção - Aluno Inteligente (Stephen King) [Resenha]

Sinopse: 

Uma história sobre a relação entre um menino viciado em histórias da Segunda Guerra Mundial e um velho com um passado nazista. 


Resenha: 

Como um gatilho pronto pra disparar. É assim que a história vai se desenvolvendo. De forma incômoda e angustiante, podendo gerar gatilhos nos leitores mais sensíveis. Muitos temas delicados são abordados, mas alguns aparentemente são só uma tentativa para marcar uma sentença ou outra como frases de efeito.

Essa é uma daquelas histórias em que a escolha do narrador foi crucial pro seu sucesso (apesar de poder trazer muita confusão pro autor). Sem o narrador quase conivente e animado com todos os absurdos que vão se passando ao decorrer da trama, a história não teria o mesmo impacto. Impossível ler e não odiar o narrador por cada escolha de palavras que ele utiliza. Mas aqui o ódio é algo bom. É o que faz a história causar emoções tão intensas. Arrisco dizer que o narrador é o grande personagem dessa história, roubando a cena do nazi e do projeto de nazi. Os dois personagens principais poderiam ter sido mais bem trabalhados.

Eu gosto muito de histórias indigestas. Mas, apesar de ter gostado da trama, achei excessivamente longa, com muitas passagens que pouco ou nada contribuíram para o desenvolvimento da história e dos personagens principais. Se por um lado o narrador é o ponto alto, a construção dos personagens deixa um pouco a desejar. Tinha grande potencial para ser ainda mais indigesta. 

O sistema de datas que é muito interessante só é usado no começo da história e depois se perde a importância cronológica dos acontecimentos quando as visitas de Todd ao velho deixam de ser tão constantes. Não dá pra entender o motivo dessa mudança sendo que a cronologia da narrativa se passa num período de quatro anos e seria interessante ter esse tempo marcado, como aconteceu no começo. 

Parece que Stephen King teve uma boa ideia e começou a produzi-la, mas por algum motivo acabou se perdendo no caminho. Estender demais o que não precisava, dar importância pra detalhes irrelevantes e deixar um pouco de lado a construção dos dois personagens principais a partir de certo ponto da história fizeram a leitura ser mais cansativa e menos impactante do que poderia.

E o gatilho nunca é disparado. Fica a expectativa e a angústia durante algum tempo, mas que vai se perdendo no decorrer da narrativa por falta de profundidade e/ou objetividade.

Uma boa história que gera uma expectativa alta no começo, mas vai perdendo a potência do meio pro final. Mas ainda assim é uma boa história. 


Ficha Técnica:
Nome: O Aluno Inteligente
Autor: Stephen King
Conto que integra a coletânea Quatro Estações
Editora: Suma
Tradutora: Andréa Costa

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Amor romântico: deus me livre ou quem me dera

 Tenho pensado bastante em porque gosto de filmes de romances com finais felizes na mesma medida que gosto de tragédias de amor. Sei que são idealizações românticas pelas quais fui bombardeado por mais de três décadas e me fizeram acreditar em algo que não é possível. Talvez não pra mim, mas provavelmente não pra ninguém. 

Eu nunca soube o que é esperar que o amor seja eterno, senão enquanto dure e nunca achei que duraria para sempre. Nem os pagodes noventistas, nem o soneto de fidelidade, nem minhas experiências, nem nenhuma experiência de alguém próximo me mostrou que isso fosse minimamente possível. 

Nunca sentei e fiz planos de longo prazo com alguém, e nunca aconteceu deles surgirem naturalmente sem ser algo combinado. Eu não sei como vou estar daqui um tempo, só sei que não serei o mesmo. Particularmente, acho isso ótimo. Mas como fazer planos e envolver o outro sendo que sequer sei que esses planos serão meus no futuro? Como posso mentir e falar que vamos comprar uma casa no campo, criar vacas, cabras e galinhas, tirar o leite e comer os ovos se posso me tornar vegano de uma hora pra outra? Não seria mentira quando a contasse, mas seria uma grande mentira seguir adiante se não fosse mais isso o que eu gostaria. A natureza mutável do meu ser me paralisa. Nunca soube muito bem como lidar com planos que se desgarram um do outro e resolvem seguir seus caminhos por lados opostos. Nunca soube conciliar esses planos para que não precisassem ser uma despedida dolorosa para todos envolvidos. 

Muito eu falo sobre ser neurótico obsessivo, gostar de padrões e locais de conforto, mas pouco falo sobre como esses padrões e locais de conforto mudam sem que eu consiga perceber claramente como essa mudança acontece, ou o porquê dela acontecer. O porquê acho que sei e você, também, deve saber. 

O amor romântico pode me fazer suspirar e desejá-lo inconscientemente, mas sei que não é plausível, muito menos saudável. As histórias de duas pessoas que se bastam poderiam ser trocadas por histórias de duas pessoas que não se bastam e mesmo assim permanecem ali, porque o que querem do outro não é completude, mas aproveitar o que o outro tem a oferecer dentro de suas limitações. Venderia menos? Seria menos prazeroso ler sobre um amor verossímil? Só quem perde com histórias reais é o "até que a morte os separe" do padre. 

Ainda me lembro de quando li Noites Brancas, como me encantou a construção dos personagens e o desfecho da narrativa. Não que eu ache que o amor precise necessariamente desmoronar, mas dentro de um campo que só explora a edificação pelo amor, as vezes, faz bem sair da mesmice. 

Quero escrever um texto específico para isso, mas não posso deixar de falar um pouco sobre a cor do amor. Quantas histórias de amor que arrancam suspiros tem protagonistas negros? Quantas se passam na periferia? Eu tenho várias problemáticas com questões de representatividade, mas não aqui. Onde vemos que podemos amar e ser amados num amor exemplar iguais dos filmes e livros? Eles existem, mas precisamos garimpar bastante. Como fazer planos com alguém se a minha realidade não foi mostrada em grandes histórias que tenham planejamento envolvendo pessoas pretas? Como fazer planos se minha expectativa de vida é menor do que as histórias em que casais envelhecem juntos e morrem de velhice com pouco tempo de diferença?
Ânsia de ter? Talvez. Nunca experimentei o tédio de possuir. E me parece ser exatamente onde moram os sonhos, num local inacessível. Não posso ser injusto e falar que nunca tive possibilidade de compartilhar planos de longo prazo, eu só não aproveitei as chances de fazê-los. 
Ainda os desejo. Ah, como eu desejo poder compartilhar planos com alguém que se empolgue e queira fazer dar certo. Compartilhar planos impossíveis também, só pelo divertimento de sonhar. Compartilhar planos de uma forma menos fantasiosa do que me apresentaram no amor romântico e mais realista com a maturidade que fui adquirindo. E é só assim que não se morre o sonho, transformando-o.
Talvez, eu seja um eterno apaixonado. Ou, talvez eu não saiba nada sobre amor e você só perdeu seu tempo lendo até aqui. Fica aí a questão. 

Se deus me chamar não vou - Mariana Salomão Carrara

O livro é narrado por uma criança, Maria Carmem, de 11 anos. Ela tem o sonho de ser escritora e escreve em seu diário acontecime...