Existem histórias melhores? Essa pergunta remete ao gosto pessoal. Toda história pode ser uma boa história se bem contada. Não tem como dizer se uma história é melhor que outra. Toda história merece ser contada e vai ter um público que vai se identificar e gostar dela. Eu gosto de histórias de qualidade bastante duvidosas, por exemplo. O que dá pra gente falar é como essas histórias são contadas. Existem histórias mais bem contadas que outras, independente da história que for.
Existem algumas técnicas narrativas que ajudam uma história ter mais profundidade. É quase uma máxima na literatura que o uso da técnica Mostre, Não Conte (Show, don't tell) gera maior imersão na narrativa. Vou tentar explicar brevemente do que se trata. Essa técnica basicamente consiste em evitar adjetivos e demonstrar as ações. Se alguém ficou feliz ou triste, não se diz que a pessoa está feliz ou triste, mas demonstra ações que levem a este entendimento. O simples adjetivar das coisas não gera um vínculo do personagem com o leitor porque é muito vago. Muita gente fica feliz e triste todos os dias e cada um a sua maneira. Se alguém sai de casa saltitando, beija seu vizinho na boca, canta com os passarinhos, ajuda uma idosa atravessar a rua, dança sem ter música, isso gera alguma reação no leitor. Se uma pessoa está nervosa, sai de casa com a cara fechada, xinga o vizinho, taca pedra em um passarinho que canta, chuta a bengala de uma idosa, sequer é preciso usar o adjetivo nervosa. Tá tudo no subtexto. Subtexto é uma das coisas mais importantes na contação de uma história. Sinto como se eu estivesse participando ativamente daquela história ao ter que perceber o que não é dito, mas é visível nos detalhes. É o autor não duvidar da inteligência de quem o lê. Imagine que um personagem perdeu a mãe e ele diz "estou triste", parece meio óbvio que o personagem ficaria triste, exceto os casos que o personagem não gostasse da própria mãe, mas nesse caso aqui ele gosta. Agora imagine que um ator representando este personagem fala que está triste com um sorriso no rosto. Você conseguiria se comover com a dor dele? O ator precisa mostrar que está triste. O personagem precisa ter a profundidade que frases passivas não permitem.
Quando estamos lendo uma história ou assistindo um filme, as frases e as imagens passam rápido, é difícil ficar atento a cada classe de palavra que é usada. O que importa não é perceber quando há ou não subtexto, importa que, mesmo inconscientemente, a gente gere uma identificação ou repulsa com o personagem por meio de suas ações. Agora imagine que um personagem fale as coisas e faça tudo completamente diferente do que falou. Qual dessas duas coisas vai valer mais pra fazer com que o público se identifique? E aqui eu não estou querendo dizer que personagens não podem ser controversos, é até bom que de algum modo eles sejam porque o ser humano é complexo. Quem precisa entender as técnicas e saber como utilizá-las é o escritor, não quem lê/assiste. Não se preocupe em ficar atento pra como uma história é contada. Aproveite a obra! Mesmo que você não saiba os motivos pelos quais gostou ou desgostou de algo, inconscientemente você percebeu muito mais do subtexto de uma obra do que imagina.
Outra qualidade importante em um autor para aproveitar a história da melhor forma é saber o que retirar. Como contar que comeu um miojo em uma história? Depende de quem escreve. Mas mais importante do que quem escreve é: essa informação é útil para a história? De nada adianta saber florear algo para parecer mais bonito se esse algo não tem utilidade alguma pra história. Então vamos partir do ponto de que, por algum motivo, essa é uma informação importante. Marcel Proust (autor de Em Busca do Tempo Perdido) escreveria essa informação colocando muitas e muitas orações em uma frase quase interminável que um leitor desatento precisaria ficar voltando para não se perder no labirinto de orações que Proust cria em sua escrita. Kurt Vonnegut (autor de Matadouro 5) escreveria: Comi um miojo. Simples, direto e sem nenhum floreio. Qual está certo? Os dois. Qual é melhor? Julgue você mesmo, é uma questão subjetiva. Eu prefiro um meio termo entre esses dois extremos que usei como exemplo.
Outro recurso narrativo é o Deus Ex Machina utilizado para resolver questões da trama sem mais nem menos, como se a mão de deus surgisse magicamente atuando na história. Toda história precisa que quem a recebe compre sua ideia. Se alguém começar a ler Tolkien e questionar a veracidade de uma pessoa ficando invisível por usar um anel mágico, essa pessoa não comprou a ideia da fantasia. Ninguém questiona a veracidade do Gato Felix retirar da sua bolsa um objeto três vezes maior do que ela. Dentro do mundo da fantasia do Gato Felix aquilo é possível. Mas até fantasias tem limites, com exceção de desenhos que estão sempre brincando com os limites que podem ultrapassar. Para contrapor o recurso do Deux Ex Machina, existe outro recurso muito mais interessante para as histórias que é a Arma de Tchekhov. A Arma de Tchekhov apresenta algo antes e posteriormente dá uma utilidade para aquilo na história. A "arma" não apareceu do nada como se deus tivesse colocado ela ali. Ela foi introduzida na história, ficou descansando e quando precisou foi acionada. Diferente de colocar uma arma convenientemente a qualquer momento sem nunca tê-la citado.
Existem muitos jeitos de deixar uma história atraente. Uma história sobre um passeio no parque sem nenhum acontecimento extraordinário pode ser muito mais interessante do que uma grande trama de detetives tentando desvendar quem é o assassino que já fez mais de mil vítimas. Tudo depende de como é contada. Personagens complexos, histórias sem furos na trama, sem excesso de adjetivos, sem resoluções mirabolantes convenientemente colocadas na história, sem enchimento de linguiça (informações completamente irrelevantes e floreios desnecessários), só esses pontos já são meio caminho pra uma trama interessante. Então, não temos histórias melhores, mas com certeza tem histórias que são mais bem contadas do que outras.