terça-feira, 18 de junho de 2024

Se deus me chamar não vou - Mariana Salomão Carrara

O livro é narrado por uma criança, Maria Carmem, de 11 anos. Ela tem o sonho de ser escritora e escreve em seu diário acontecimentos e emoções pelas quais ela passa. O primeiro pensamento que tive foi de que não foi mimetizado a escrita de uma criança de 11 anos, com os erros gramaticais e ortográficos, mas isso não causa um incômodo, afinal Maria Carmem queria ser escritora e livros passam por processos de revisões.

No começo parece que vai ser um livro fofinho, mas é um livro doloroso. A narrativa consegue nos transmitir as dores e angústias que assolam Maria Carmem. O livro é quase um pedido de socorro. Maria Carmem sofre e sonha em ser escritora. Sonha em ter seus pensamentos mostrados ao mundo. Poder ser ouvida de alguma forma. 

Ela sofre bullying na escola e em casa a configuração familiar sofre uma mudança bem brusca para ela. Ela se sente bastante solitária, na escola ela não tem amigos e quando tenta fazer uma amizade, as coisas não dão muito certo. Em casa, ela também se sente solitária. Pode ser que em casa ela não seja tão solitária, mas como o livro é narrado do ponto de vista dela, é assim que ela descreve como se sente. Não temos como saber exatamente como é a convivência dela com os pais, exceto o que ela escreve nos momentos em que está sozinha.

O livro tem o nome deus escrito com letra minúscula, provavelmente, por conta dos questionamentos que Maria Carmem traz sobre deus, chegando a duvidar de sua existência. Me recordei de uma brincadeira que eu fazia bem parecida com a brincadeira que ela faz com deus para dormir em tanto tempo. No meu caso não era sobre dormir, mas sempre era sobre espera e demora.

Quem já passou por situações de bullying ou solidão, certamente vai se identificar com a protagonista. É bem triste ver uma criança falando sobre morte, mas acho que em casos extremos de não se sentir parte do mundo, isso deva ser bem comum.

Será que estamos escutando as crianças? Ouvindo sobre suas vivências e emoções? Não é porque alguém viveu menos que nós que sua vivência e emoções deva ser ignorada ou menosprezada. Deixar que a criança amadureça sozinha para aprender a lidar com as intempéries da vida e muito cruel com elas e pode causar traumas difíceis de serem reparados.

domingo, 9 de junho de 2024

Quatro Estações - Stephen King

Primavera Eterna - Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank
Você já viu o filme Um Sonho de Liberdade? Considerado por muitos o melhor filme já feito, é uma adaptação desta novela. Apesar de não concordar que seja o melhor filme já feito, é uma história incrível. Não sei se gosto mais do filme ou da novela. Uma coisa que é impactante é o primeiro contato com a obra e tive meu primeiro contato pelo filme. A primeira vez que você tem contato é maravilhosa, como toda a trama foi montada de uma maneira muito inteligente e surpreendente. Quando li o texto, já não tive mais o impacto da surpresa. Mas isso não quer dizer que seja uma leitura ruim, é ótima! 
Os personagens são bem trabalhados, a história é envolvente e muito bem contada.
Com certeza vale a leitura.

Verão da Corrupção - Aluno Inteligente
Um garoto que descobre um nazista, que cuidou de um campo de concentração, morando em sua cidade. O garoto então ameaça o velho para que ele conte todos os horrores que inflingiu aos outros. O que parece ser uma curiosidade inocente, logo se torna uma obsessão. Eles se alimentam de forma mútua pelo sadismo das histórias. 
Começa com uma escalada muito grande em tensão. Logo se percebe que o garoto não é nada inocente com o que faz. A gente fica curioso pra conhecer mais da história e dos personagens, mas aí tudo fica morno. Não há como sentir empatia pelos personagens e o tanto de passagens da vida deles que não tem importância vai deixando a leitura tediosa. A novela tem uma proposta muito interessante e um começo maravilhoso, mas se perde sendo muito mais extenso do que precisava.

Outono da Inocência - O Corpo
Eu comprei o livro justamente por causa desse conto. A adaptação Conta Comigo é um dos meus filmes favoritos desde a infância. Se tem um conto que fez valer o livro é este. Se no conto anterior os dramas dos personagens só servem pra encher linguiça, aqui cada drama é importante pro desenvolvimento dos personagens que acontece de forma primorosa. Todo mundo se parece ou em algum momento conheceu alguém parecido com um dos personagens, isso gera identificação. Cada drama é trabalhado de forma que faz a gente ter empatia por eles.
Sem dúvidas esse vale ser lido e assistido o filme.

Inverno no Clube - O Método Respiratório
A única história do livro com uma pitada de terror. Terror ou mistério? Não sei dizer. Começa de forma lenta, os personagens não são bem trabalhados, nenhum deles gera a menor empatia. A história tenta se segurar pelos mistérios que nos prendem pra querer saber o que é aquilo, o que vai acontecer. Mas não é suficiente porque tem um final aberto e o que gerou interesse não foi concluído. Sabe quando falam pra não brincar com laser com gatos por eles se frustrarem por nunca conseguir pegar o laser? Me senti assim. Fiquei curioso, fui avançando na leitura e nada e no final nada também. Senti como se o autor não tivesse planejado a história antes e depois não conseguiu dar minimamente uma conclusão melhor, ainda que fosse um final aberto, mas com mais pistas do que deveríamos pensar sobre tudo aquilo. Bem escrito senão não geraria curiosidade, mas só. Personagens pouco elaborados, as curiosidades são mais interessantes que os personagens e os acontecimentos. É prometida uma recompensa que não vem, ela não existe. Final muito frustrante. 

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Existem histórias melhores?


Existem histórias melhores? Essa pergunta remete ao gosto pessoal. Toda história pode ser uma boa história se bem contada. Não tem como dizer se uma história é melhor que outra. Toda história merece ser contada e vai ter um público que vai se identificar e gostar dela. Eu gosto de histórias de qualidade bastante duvidosas, por exemplo. O que dá pra gente falar é como essas histórias são contadas. Existem histórias mais bem contadas que outras, independente da história que for.

Existem algumas técnicas narrativas que ajudam uma história ter mais profundidade. É quase uma máxima na literatura que o uso da técnica Mostre, Não Conte (Show, don't tell) gera maior imersão na narrativa. Vou tentar explicar brevemente do que se trata. Essa técnica basicamente consiste em  evitar adjetivos e demonstrar as ações. Se alguém ficou feliz ou triste, não se diz que a pessoa está feliz ou triste, mas demonstra ações que levem a este entendimento. O simples adjetivar das coisas não gera um vínculo do personagem com o leitor porque é muito vago. Muita gente fica feliz e triste todos os dias e cada um a sua maneira. Se alguém sai de casa saltitando, beija seu vizinho na boca, canta com os passarinhos, ajuda uma idosa atravessar a rua, dança sem ter música, isso gera alguma reação no leitor. Se uma pessoa está nervosa, sai de casa com a cara fechada, xinga o vizinho, taca pedra em um passarinho que canta, chuta a bengala de uma idosa, sequer é preciso usar o adjetivo nervosa. Tá tudo no subtexto. Subtexto é uma das coisas mais importantes na contação de uma história. Sinto como se eu estivesse participando ativamente daquela história ao ter que perceber o que não é dito, mas é visível nos detalhes. É o autor não duvidar da inteligência de quem o lê. Imagine que um personagem perdeu a mãe e ele diz "estou triste", parece meio óbvio que o personagem ficaria triste, exceto os casos que o personagem não gostasse da própria mãe, mas nesse caso aqui ele gosta. Agora imagine que um ator representando este personagem fala que está triste com um sorriso no rosto. Você conseguiria se comover com a dor dele? O ator precisa mostrar que está triste. O personagem precisa ter a profundidade que frases passivas não permitem. 

Quando estamos lendo uma história ou assistindo um filme, as frases e as imagens passam rápido, é difícil ficar atento a cada classe de palavra que é usada. O que importa não é perceber quando há ou não subtexto, importa que, mesmo inconscientemente, a gente gere uma identificação ou repulsa com o personagem por meio de suas ações. Agora imagine que um personagem fale as coisas e faça tudo completamente diferente do que falou. Qual dessas duas coisas vai valer mais pra fazer com que o público se identifique? E aqui eu não estou querendo dizer que personagens não podem ser controversos, é até bom que de algum modo eles sejam porque o ser humano é complexo. Quem precisa entender as técnicas e saber como utilizá-las é o escritor, não quem lê/assiste. Não se preocupe em ficar atento pra como uma história é contada. Aproveite a obra! Mesmo que você não saiba os motivos pelos quais gostou ou desgostou de algo, inconscientemente você percebeu muito mais do subtexto de uma obra do que imagina. 

Outra qualidade importante em um autor para aproveitar a história da melhor forma é saber o que retirar. Como contar que comeu um miojo em uma história? Depende de quem escreve. Mas mais importante do que quem escreve é: essa informação é útil para a história? De nada adianta saber florear algo para parecer mais bonito se esse algo não tem utilidade alguma pra história. Então vamos partir do ponto de que, por algum motivo, essa é uma informação importante. Marcel Proust (autor de Em Busca do Tempo Perdido) escreveria essa informação colocando muitas e muitas orações em uma frase quase interminável que um leitor desatento precisaria ficar voltando para não se perder no labirinto de orações que Proust cria em sua escrita. Kurt Vonnegut (autor de Matadouro 5) escreveria: Comi um miojo. Simples, direto e sem nenhum floreio. Qual está certo? Os dois. Qual é melhor? Julgue você mesmo, é uma questão subjetiva. Eu prefiro um meio termo entre esses dois extremos que usei como exemplo. 

Outro recurso narrativo é o Deus Ex Machina utilizado para resolver questões da trama sem mais nem menos, como se a mão de deus surgisse magicamente atuando na história. Toda história precisa que quem a recebe compre sua ideia. Se alguém começar a ler Tolkien e questionar a veracidade de uma pessoa ficando invisível por usar um anel mágico, essa pessoa não comprou a ideia da fantasia. Ninguém questiona a veracidade do Gato Felix retirar da sua bolsa um objeto três vezes maior do que ela. Dentro do mundo da fantasia do Gato Felix aquilo é possível. Mas até fantasias tem limites, com exceção de desenhos que estão sempre brincando com os limites que podem ultrapassar. Para contrapor o recurso do Deux Ex Machina, existe outro recurso muito mais interessante para as histórias que é a Arma de Tchekhov. A Arma de Tchekhov apresenta algo antes e posteriormente dá uma utilidade para aquilo na história. A "arma" não apareceu do nada como se deus tivesse colocado ela ali. Ela foi introduzida na história, ficou descansando e quando precisou foi acionada. Diferente de colocar uma arma convenientemente a qualquer momento sem nunca tê-la citado. 

Existem muitos jeitos de deixar uma história atraente. Uma história sobre um passeio no parque sem nenhum acontecimento extraordinário pode ser muito mais interessante do que uma grande trama de detetives tentando desvendar quem é o assassino que já fez mais de mil vítimas. Tudo depende de como é contada. Personagens complexos, histórias sem furos na trama, sem excesso de adjetivos, sem resoluções mirabolantes convenientemente colocadas na história, sem enchimento de linguiça (informações completamente irrelevantes e floreios desnecessários), só esses pontos já são meio caminho pra uma trama interessante. Então, não temos histórias melhores, mas com certeza tem histórias que são mais bem contadas do que outras. 















terça-feira, 4 de junho de 2024

Você está sendo manipulado!

Bem diferente de outros livros que tratam do assunto, esse é o que traz o cenário mais realista com diversas pessoas que trabalham ou trabalharam nas Big Techs falando sobre as problemáticas das redes sociais. Longe de ser alarmista ou sensacionalista, o livro mostra com embasamento como as redes sociais são uma verdadeira Máquina do Caos.

Não se trata de máquinas dominarem o mundo pegando em armas de fogo, talvez, o cenário seja bem pior e eu acredito que seja. As redes sociais estão manipulando a política e semeando o ódio. Se você tem redes sociais, você está sendo manipulado. Não se trata de achar que você pode não se deixar manipular, os algoritmos foram construídos para manipularem, tudo que você vê e o que não vê foi arquitetado por algoritmos que só visam o lucro enquanto te mantém numa bolha cada vez mais restrita de pessoas que pensam igual você. Não há como usar as redes sociais com sabedoria porque o propósito dos algoritmos é outro.

O conteúdo é amplo mostrando muitos detalhes de como funciona a Máquina do Caos. Exemplos até demais que uma hora fica cansativo. São histórias reais de como as Big Techs semearam o ódio por meio dos algoritmos de suas redes sociais. Pessoas que tiveram suas vidas drasticamente prejudicadas e quem sabe se um dia voltaram a terem suas vidas de volta ao normal.

É o roteiro que nenhum autor de ficção científica conseguiu prever, visto que ninguém conseguiu prever a internet, e é bem pior do que muitos cenários criados por esses autores. E o cenário só tende a piorar. Nada que as redes sociais possam ter trazido de bom consegue minimamente amenizar todos os danos que elas vem causando. Pode ser que seja tarde quando percebermos que as redes sociais, do jeito que são hoje, precisam ser extintas porque causam danos irreparáveis demais à sociedade. Talvez, o nome de CEOs das Big Techs figure entre as piores pessoas que já viveram na terra. E se você acha que isso é sensacionalismo, te convido a ler o livro e ver por si só os malefícios que essas pessoas, mesmo sabendo, resolveram causar.

Espero que tenhamos volta para uma sociedade menos cheia de ódio. Espero que não seja tarde demais para parar a Máquina do Caos.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Não é sobre a morte - A morte de Ivan Ilitch (Leon Tolstói)

Liev Tolstoi já começa o livro introduzindo a morte do personagem, como já foi anunciado no próprio título do livro. Nos capítulos seguintes, acompanharemos a vida de Ivan Ilitch desde muito novo, até seus momentos finais.

O livro é narrado em terceira pessoa, focalizando em Ivan Ilitch. Poderia ter sido narrado em primeira pessoa, visto que em alguns pontos o narrador quase se mescla com o protagonista, dizendo coisas ele mesmo (o narrador) que podem até confundir se são pensamentos do narrador ou do Ivan, podemos ver uma situação dessa no seguinte trecho: "[...] havia sido a vida toda um ser único, especial". Ao meu ver essa quase mesclagem entre narrador e protagonista foi um grande acerto de Tolstoi que construiu a obra maravilhosamente bem.

O que o livro traz de reflexão mais constante não é a morte, mas a vida. A angústia sobre a morte é um detalhe, muito bem colocado, para o protagonista questionar sua vida e todas as escolhas que fez. Onde podemos ver no seguinte trecho: ""Talvez eu não tenha vivido como deveria," ocorreu-lhe de repente. "Mas, como, se eu sempre fiz o que devia fazer?", respondeu, imediatamente descartando essa hipótese; a solução para o enigma da vida e da morte era algo impossível de encontrar.".

Porém, antes de ele pensar isso, já apresentava sinais do desacordo com o modo como vivia, quando quase todas as pessoas ao seu redor começam a tratá-lo com uma falsidade em nome do decoro como ele tratou as coisas durante toda sua vida: "O horrível, terrível ato de sua morte, ele via, estava sendo reduzido por aqueles que o rodeavam ao nível de um acidente fortuito, desagradável e um pouco indecente [...], e agiam assim em nome do mesmo decoro ao qual ele próprio subjugara-se a vida inteira."

E só então no final ele alcança a coragem para realmente questionar seu modo de vida. Um burocrata que agiu sempre em nome de seus interesses próprios como poder e dinheiro, aproximando-se de pessoas influentes e deixando de lado quem não podia lhe oferecer status. E é na figura do seu trabalhador mais humilde onde ele encontra o único resquício de veracidade dentro de sua própria casa. Seu casamento não foi um ato pensado para além de uma questão social, seus filhos ele não demonstrava amar, seu trabalho ele o realizava da melhor forma para mascarar seus problemas e poder manter seu status de cidadão da alta sociedade, coisa que nunca foi.

Ao julgar a atitude de todos ao seu redor como uma farsa, ele julgava a sua vida. Vejamos o trecho: "Ocorreu-lhe, pela primeira vez, o que lhe tinha parecido totalmente impossível antes - que ele não teria vivido como deveria. Veio-lhe à cabeça a ideia de que aquela sua leve inclinação para lutar contra os valores das classes altas, aqueles impulsos de rebeldia que mal se notavam e que ele havia tão bem aplacado talvez fossem a única coisa verdadeira, e o resto todo, falso. E suas obrigações profissionais e a retidão de sua vida e sua família e sua vida social tudo falso e sem sentido. Tentou defender essas coisas a seus próprios olhos e subitamente deu-se conta da fragilidade do que estava defendendo. Não havia o que defender."

Não sei se a crítica que o livro faz ficou evidente para todos, mas espero ter contribuído. Liev Tolstoi era um crítico ferrenho da alta burguesia e nesse livro ele coloca alguém (de classe média) que se acha burguesia para mostrar a grande besteira que é não se viver o que se quer em nome de um status quo.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Godzilla Minus One é uma aula de semiótica

[CONTÉM SPOILERS] 

Godzilla é a maior franquia de filmes do mundo. E Godzilla Minus One é simplesmente o melhor filme de todos os mais de 30 filmes da franquia. 

Não tenho por objetivo fazer uma crítica completa do filme. Não me considero apto o suficiente para falar sobre muitos detalhes técnicos como efeitos especiais (CGI ou efeitos práticos), efeitos sonoros, trilha sonora, entre outras coisas. O que acho que posso falar com alguma propriedade é sobre a história e como ela é contada. (Storytelling, palavra em outra língua que quer dizer Contação de histórias). 

O primeiro filme do Godzilla foi lançado em 1954, nove anos após o término da segunda grande guerra. Godzilla foi criado para mostrar os horrores da guerra e mais especificamente as consequências das bombas nucleares jogadas em Hiroshima e Nagasaki. 
Com tantos filmes estadunidenses distorcendo o simbolismo do monstro, Godzilla Minus One não é só um filme maravilhoso, é uma verdadeira aula de semiótica. 

semiótica
(se·mi·ó·ti·ca)
substantivo feminino

1. Ciência dos modos de produçãode funcionamento e de  dos diferentes sistemas de sinais de comunicação entre indivíduos ou coletividades.

"semiótica", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024.

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Verão da corrupção - Aluno Inteligente (Stephen King) [Resenha]

Sinopse: 

Uma história sobre a relação entre um menino viciado em histórias da Segunda Guerra Mundial e um velho com um passado nazista. 


Resenha: 

Como um gatilho pronto pra disparar. É assim que a história vai se desenvolvendo. De forma incômoda e angustiante, podendo gerar gatilhos nos leitores mais sensíveis. Muitos temas delicados são abordados, mas alguns aparentemente são só uma tentativa para marcar uma sentença ou outra como frases de efeito.

Essa é uma daquelas histórias em que a escolha do narrador foi crucial pro seu sucesso (apesar de poder trazer muita confusão pro autor). Sem o narrador quase conivente e animado com todos os absurdos que vão se passando ao decorrer da trama, a história não teria o mesmo impacto. Impossível ler e não odiar o narrador por cada escolha de palavras que ele utiliza. Mas aqui o ódio é algo bom. É o que faz a história causar emoções tão intensas. Arrisco dizer que o narrador é o grande personagem dessa história, roubando a cena do nazi e do projeto de nazi. Os dois personagens principais poderiam ter sido mais bem trabalhados.

Eu gosto muito de histórias indigestas. Mas, apesar de ter gostado da trama, achei excessivamente longa, com muitas passagens que pouco ou nada contribuíram para o desenvolvimento da história e dos personagens principais. Se por um lado o narrador é o ponto alto, a construção dos personagens deixa um pouco a desejar. Tinha grande potencial para ser ainda mais indigesta. 

O sistema de datas que é muito interessante só é usado no começo da história e depois se perde a importância cronológica dos acontecimentos quando as visitas de Todd ao velho deixam de ser tão constantes. Não dá pra entender o motivo dessa mudança sendo que a cronologia da narrativa se passa num período de quatro anos e seria interessante ter esse tempo marcado, como aconteceu no começo. 

Parece que Stephen King teve uma boa ideia e começou a produzi-la, mas por algum motivo acabou se perdendo no caminho. Estender demais o que não precisava, dar importância pra detalhes irrelevantes e deixar um pouco de lado a construção dos dois personagens principais a partir de certo ponto da história fizeram a leitura ser mais cansativa e menos impactante do que poderia.

E o gatilho nunca é disparado. Fica a expectativa e a angústia durante algum tempo, mas que vai se perdendo no decorrer da narrativa por falta de profundidade e/ou objetividade.

Uma boa história que gera uma expectativa alta no começo, mas vai perdendo a potência do meio pro final. Mas ainda assim é uma boa história. 


Ficha Técnica:
Nome: O Aluno Inteligente
Autor: Stephen King
Conto que integra a coletânea Quatro Estações
Editora: Suma
Tradutora: Andréa Costa

Se deus me chamar não vou - Mariana Salomão Carrara

O livro é narrado por uma criança, Maria Carmem, de 11 anos. Ela tem o sonho de ser escritora e escreve em seu diário acontecime...